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Eu, coruja...

Eu, coruja...
Observo o que ninguém vê.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

TPM

"A noite chovia seus baldes, passional e absoluta feito mulher fértil. Eu voltava prá casa, mochila nas costas, pensando nas desgraças todas do mundo, seguindo meu caminho no quase escuro - que a vida tem desses momentos quase escuros - e enfiei o pé numa poça d'água - tão funda quanto a Baía da Guanabara - que se me espirrou nos olhos e estaquei.
Olhei à minha volta, respiração presa. Não havia um espectro de gente a quem se pudesse amaldiçoar.
Num atmo de fúria, fechei o guarda-chuva e o apontei aos buracos todos do passeio, rogando sobre eles e à Prefeitura as Sete Pragas do Egito - que agora serviam bem de culpados por todos os infortúnios e incompletudes da vida.
Eu era uma coisa toda molhada - como que um cuspe da tempestade - e tinha inteira me esvaziado.
Olhei prá cima. A Lua me olhava sem me ver e me senti livre por ser tão desimportante. Eu era mais uma, porém única prá mim.
Então caminhei pela calçada, metendo os pés em toda poça que não tivera tempo de amaldiçoar, até chegar ao prédio onde moro.
O porteiro me liberou a entrada e eu estava, de novo, em casa. Subi as escadas correndo, um chuveiro quente me aguardava...
...
E o instante anterior...?
Ficou ontem... não volta mais.
Liguei o chuveiro - quanto me vou durar?...
...
Os minutos todos me esperam!..."

                                                (Jordana Lima Duarte)